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BIOCOMBUSTÍVEIS E CULTURAS ALIMENTARES: UM ESTUDO DA RELAÇÃO DE CAUSALIDADE ENTRE OS PREÇOS DO AÇÚCAR E DO ETANOL NO BRASIL
André de Souza Melo

PIMES/UFPE


Ricardo Chaves Lima

PIMES/UFPE


Resumo

Este trabalho tem como objetivo analisar a relação de causalidade entre o preço de etanol e o preço do açúcar utilizando a metodologia de Vetores Autoregressivos. A expansão do etanol no Brasil é resultado de um aumento da demanda internacional pela commodity devido a questões ambientais, econômicas e geopolíticas. É resultado também do crescimento do consumo interno devido à introdução de veículos bicombustíveis na frota brasileira. O aumento da produção de etanol gerou uma competição com a produção do açúcar, que reduziu a disponibilidade da commodity, aumentando, desta forma, o preço de um dos alimentos essenciais na composição da cesta básica. Como resultado, foi encontrado uma relação de bicausalidade entre os preços do etanol e do açúcar. Entretanto, essa relação de foi de maior intensidade no preço do açúcar sobre o preço do álcool, sugerindo que o mercado de açúcar é consolidado e depende de fatores ligados ao mercado açucareiro. No longo prazo, os preços do açúcar e do álcool sofrem aumento com um choque no preço do petróleo, sugerindo uma dependência das oscilações dessa commodity internacional. Portanto, a criação do novo mercado de biocombustível demonstrou ser um fenômeno recente, e com isso, parece não afetar significativamente o mercado de açúcar.



Palavras-chaves: combustível fóssil, preço do açúcar, preço do etanol, VAR, biocombustíveis.
Abstract

This paper aims to analyze the causality relationship between ethanol and sugar prices. To develop this examination, we apply Vector Autoregression methodology. The Brazilian ethanol expansion is a result of an international demand increase for this commodity, due to environmental, economic and geopolitical issues. It is also a result of the domestic ethanol consumption increase due to introduction of flex vehicles in Brazil. With this demand intensification for ethanol, a competition arises against the sugar production. This situation represents an impact on sugar production, reducing the availability for this commodity and thus, increasing the price of the one of the most essential food. As a result, a bicausal relation between ethanol and sugar price was found. However, this relationship is more intensive from sugar price to ethanol price. It suggests that sugar market is more consolidated and depends on its own factors. In the long run, the oil price is the main determinant of the sugar-ethanol market dynamic. Thus, the rise of biofuel market is a recent issue, and does not affect significantly the sugar market.



Key Words: fossil fuel, sugar price, ethanol price, VAR, biofuels.
Área 10 - Economia Agrícola e do Meio Ambiente
JEL: Q11 , Q13 , Q42

BIOCOMBUSTÍVEIS E CULTURAS ALIMENTARES: UM ESTUDO DA RELAÇÃO DE CAUSALIDADE ENTRE OS PREÇOS DO AÇÚCAR E DO ETANOL NO BRASIL
Resumo

Este trabalho tem como objetivo analisar a relação de causalidade entre o preço de etanol e o preço do açúcar utilizando a metodologia de Vetores Autoregressivos. A expansão do etanol no Brasil é resultado de um aumento da demanda internacional pela commodity devido a questões ambientais, econômicas e geopolíticas. É resultado também do crescimento do consumo interno devido à introdução de veículos bicombustíveis na frota brasileira. O aumento da produção de etanol gerou uma competição com a produção do açúcar, que reduziu a disponibilidade da commodity, aumentando, desta forma, o preço de um dos alimentos essenciais na composição da cesta básica. Como resultado, foi encontrado uma relação de bicausalidade entre os preços do etanol e do açúcar. Entretanto, essa relação de foi de maior intensidade no preço do açúcar sobre o preço do álcool, sugerindo que o mercado de açúcar é consolidado e depende de fatores ligados ao mercado açucareiro. No longo prazo, os preços do açúcar e do álcool sofrem aumento com um choque no preço do petróleo, sugerindo uma dependência das oscilações dessa commodity internacional. Portanto, a criação do novo mercado de biocombustível demonstrou ser um fenômeno recente, e com isso, parece não afetar significativamente o mercado de açúcar.



Palavras-chaves: combustível fóssil, preço do açúcar, preço do etanol, VAR, biocombustíveis.
Abstract

This paper aims to analyze the causality relationship between ethanol and sugar prices. To develop this examination, we apply Vector Autoregression methodology. The Brazilian ethanol expansion is a result of an international demand increase for this commodity, due to environmental, economic and geopolitical issues. It is also a result of the domestic ethanol consumption increase due to introduction of flex vehicles in Brazil. With this demand intensification for ethanol, a competition arises against the sugar production. This situation represents an impact on sugar production, reducing the availability for this commodity and thus, increasing the price of the one of the most essential food. As a result, a bicausal relation between ethanol and sugar price was found. However, this relationship is more intensive from sugar price to ethanol price. It suggests that sugar market is more consolidated and depends on its own factors. In the long run, the oil price is the main determinant of the sugar-ethanol market dynamic. Thus, the rise of biofuel market is a recent issue, and does not affect significantly the sugar market.



Key Words: fossil fuel, sugar price, ethanol price, VAR, biofuels.
1. Introdução
A maior parte da energia consumida atualmente no mundo deriva de fontes não renováveis como petróleo, carvão e gás natural. Essas, no entanto, devem se esgotar em datas futuras. Dessa forma, nas últimas décadas, as fontes renováveis de energia de base biológica têm sido consideradas como alternativa à matriz energética convencional.1 De acordo com Sachs (2005), a utilização intensiva de biomassa para a produção de energia combustível oferece uma oportunidade de geração de emprego e renda aos países tropicais que apresentam, em geral, vantagens comparativas de produtividade mais elevadas. O autor alerta, no entanto, que as áreas de expansão para a produção de biocombustíveis podem concorrer com áreas destinadas à produção de culturas alimentares. Nos Estados Unidos, por exemplo, o crescimento recente da produção de etanol baseado na cultura de milho tem despertado a atenção de analistas sobre os possíveis impactos na oferta e nos preços das culturas alimentares. Elobeid et al. (2006) examinam os impactos de longo prazo da produção de etanol baseado em milho, e concluem que os impactos positivos do aumento no emprego e na renda para os produtores desse cereal e para a indústria de álcool combustível vêm acompanhados de impactos negativos relacionados à elevação de preços de alimentos e matérias-primas que utilizam milho. Babcock (2008) e Rajagopal e Zilberman (2007) também afirmam que pode haver algumas discordâncias sobre a magnitude do efeito do biocombustível no preço dos alimentos, mas não há discordâncias sobre a existência desse impacto. O tamanho do impacto será determinado pelo nível de preço do petróleo e o grau de crescimento da produção de biocombustível devido ao incentivo de políticas públicas.

Martines-Filho et al (2006) chamam atenção a três lições que devem ser tomadas para os países em desenvolvimento produtores de biocombustíveis. A primeira lição é sobre a complexa tarefa dos países equilibrarem intervenções governamentais com forças de mercado para se desenvolver um sistema industrial compatível com o crescimento da demanda interna e mundial de bioenergia. A segunda pauta sobre a implantação de Pesquisa e Desenvolvimento com o objetivo de baixar os custos de produção e, assim, permitir o crescimento dessa nova indústria. Por fim, a terceira lição é caracterizada pelos desafios para a bioenergia com uma crescente competição com a indústria de alimentos que possuem a mesma matéria-prima dos biocombustíveis. Essa última lição é o foco do nosso estudo, pois, ao que parece, o Brasil tem uma maior maturidade em relação as duas primeiras lições.

O Brasil possui um elevado grau de maturidade nas lições indicadas pelos autores, sendo hoje, o segundo maior produtor mundial de biocombustíveis, com ênfase em etanol de cana-de-açúcar. Foi nos anos setenta, quando o governo brasileiro estabeleceu o Programa Nacional de Álcool, conhecido como PROÁLCOOL, que o Brasil se consolidou no mercado mundial de etanol. O programa, no entanto, dependia consideravelmente de suporte do poder público e foi efetivamente desativado nos anos noventa com a liberalização dos preços do álcool hidratado. Atualmente, o governo brasileiro ainda oferece suporte ao setor através de uma combinação de regulação de mercado e incentivos fiscais2. Balcombe e Rapsomanikis (2008) afirmam que o PROÁLCOOL encorajou mudanças tecnológicas tanto na conversão de cana-de-açúcar para etanol quanto na fabricação de veículos que podem usar altos níveis de mesclas entre etanol e gasolina. Assim, melhora-se a eficiência, o preço da cana se torna mais baixo; resultando, então, em custos que são menores do que os custos de oferta regional da gasolina em termos de volume. De acordo com Von Lampe (2006), o Brasil é o país mais competitivo com relação a custo de produção de álcool combustível. O estudo afirma que o país seria único capaz de produzir etanol eficientemente mesmo que o preço do barril de petróleo caísse a U$ 39,00.

Essa vantagem comparativa do setor de álcool combustível no Brasil, bem como a necessidade da substituição dos combustíveis fósseis, tem estimulado os agentes econômicos a investirem na produção de etanol nos últimos anos. Apesar das usinas brasileiras produzirem conjuntamente açúcar e álcool, no ano de 2006, 12 das 19 novas usinas abertas no país produziram apenas etanol (Tokgoz e Elobeid, 2006). Com isso, a expansão de álcool combustível em resposta à alta demanda por biocombustíveis tem refletido no aumento do preço do açúcar, produto substituto de mesma matéria-prima do álcool, o qual cresceu 23% de dezembro de 2007 a março de 2008, sendo o segundo produto responsável pela alta do preço de alimentos no mundo (Carvalho, 2008). O alto preço de açúcar é também atrativo para o produtor brasileiro, pois o Brasil é um dos maiores produtores de açúcar no mundo. Isso faz surgir um trade off entre cultivar a cana-de-açúcar para açúcar e produzir etanol (Müller et al 2007).

Desta forma, o objetivo presente trabalho é estudar a dinâmica do mercado sucroalcooleiro, com foco na relação entre o preço do etanol e do açúcar. Analisam-se, ainda, os possíveis impactos da expansão na segurança alimentar, refletida no aumento nos preços nacionais do açúcar.

Este trabalho está dividido em 5 partes, além da presente introdução. A próxima seção explora a literatura recente sobre biocombustíveis, bem como uma descrição sobre o mercado sucroalcooleiro. A quinta seção discute os modelos estudados sobre biocombustíveis, e aborda a modelagem de vetores autoregressivos, citando a origem dos dados. Logo após, são apresentados os resultados e as discussões. Finalmente, algumas considerações são feitas à guisa de conclusão.



2. Revisão da Literatura
2.1. Estudos Sobre os Impactos dos Biocombustíveis no Preço dos Alimentos
O uso de fontes renováveis para a produção energética pode ser explicado por diversos fatores: ecológicos, econômicos e geopolíticos. Os ecológicos surgem devido a um aumento na emissão de gases tóxicos com o crescente uso de combustível fóssil e ao fato de muitos países considerarem biocombustíveis como as melhores alternativas para redução da emissão de gases poluentes. Os econômicos originam-se da crescente alta dos preços do petróleo e a finita oferta de combustíveis fósseis, criando então, incentivos para o uso de fontes alternativas e de pesquisas nessa área. Já os fatores geopolíticos são oriundos da dependência de regiões que ofertam petróleo e que passam por momentos de risco iminente de guerras. Com essa preocupação, o uso de biocombustíveis é pauta de políticas governamentais na maioria dos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Além desses fatores, o consumo e o comércio de biocombustíveis podem também ser influenciados pela sustentabilidade da cadeia produtiva e por outros fatores socioeconômicos. Entre esses fatores inclui-se a possibilidade da produção de biocombustível, das importações e exportações terem um impacto negativo na produção de alimentos nos países desenvolvidos e em desenvolvimento (Von Lampe, 2006, Elobeid, 2006).

Muitos estudos têm focado na questão dos impactos do crescimento da produção de biocombustíveis no preço dos alimentos das economias produtoras de etanol e biodiesel. Von Lampe (2006), por exemplo, afirma que os altos preços do barril petróleo resultam em aumento dos preços de commodities alimentares através de altos custos de produção e incentivos para produzir biocombustível. O mercado de commodities agrícolas é também um importante determinante na dinâmica do mercado de biocombustíveis. Com essa motivação, Tokgoz e Elobeid (2006) buscaram entender a relação entre os mercados de etanol, cana-de-açúcar e milho. Os autores revelam que existe competição entre o setor de etanol e os outros setores que utilizam a mesma matéria-prima, de modo que a lucratividade relativa desses setores irá determinar as tendências de longo prazo no setor agrícola.

Dong (2007) defende a idéia que os países em desenvolvimento devem considerar o problema da segurança alimentar em face da expansão dos biocombustíveis. Segundo ele, quanto mais grãos de alimentos forem usados para produzir biocombustível, mais terra será alocada para a matéria prima do biocombustível, maior será o preço dos grãos. Ademais, esses aumentos de preços também fazem crescer o custo alimentar do setor pecuário. Conseqüentemente, preços dos alimentos aparentemente não relacionados aos biocombustíveis são afetados. Ele faz um estudo de caso para a China, motivado pela competição entre alimento e combustível naquele país e agravado pela baixa disponibilidade de terra cultivada per capita.

Sobre o mercado americano de etanol, Figueira e Burnquist (2006) efetuaram projeções do consumo americano de gasolina e, assim, projetar alguns cenários para o consumo de etanol até 2012, ano que é referencia para o programa americano de combustíveis renováveis. Os resultados mostram que a produção de etanol de milho vai atingir, em 2012, 28 bilhões de litros. Porém, os autores afirmam que o programa de etanol americano não se mostra promissor em termos de mercado consumidor para o etanol produzido no Brasil, pois as exportações realizadas diretamente para os EUA necessitam pagar tarifas de US$0,54 por galão.

Tokgoz e Elobeid (2006) analisam o impacto de choques de preço em três mercados relacionados ao etanol: gasolina, milho e açúcar. Eles investigam o impacto destes choques no etanol relacionado aos mercados agrícolas nos Estados Unidos e no Brasil. Como resultado, a composição da frota de veículos (o fato de ser bi-combustível ou não) determina o consumo do etanol e o preço da gasolina. Foi encontrado no estudo também que mudanças nos custos dos insumos afetam a rentabilidade dos produtores de etanol e o preço doméstico do biocombustível.

Fabiosa et al (2008), estudam os impactos do crescimento do etanol na alocação de terras para outras culturas alimentares nos Estados Unidos e no Brasil. Como resultado a expansão americana tem fortes efeitos globais na alocação de terras e em preços dos grãos (milho) cujos efeitos são transmitidos mundialmente. Os autores afirmam que mudanças no preço dos grãos americanos também afetam os preços do trigo e das oleaginosas. Em contraste, uma expansão do etanol brasileiro, afeta principalmente o mercado mundial de etanol e a terra usada para produção de cana-de-açúcar no Brasil. O efeito dessa expansão afeta outros países produtores de açúcar, porém numa menor medida. Entretanto, a expansão brasileira de etanol tem um pequeno impacto no uso de terra para outras culturas. A cana-de-açúcar compete menos com outras culturas no Brasil do que o milho com outras culturas norte-americanas.

Banse et al (2008) avaliam as implicações da Diretiva dos Biocombustíveis na União Européia, utilizando a ferramenta de equilíbrio geral computável e considerando a oferta de terra endógena. Os resultados mostram que, quando não há intervenção de políticas que estimulem o uso de culturas para o biocombustíveis, as metas do programa não são cumpridas. Com o programa, a demanda por culturas dos biocombustíveis tem um forte impacto na agricultura mundial, acarretando em um aumento no uso da terra, revertendo a tendência de longo prazo de queda dos preços reais das commodities agrícolas.

Balcombe e Rapsomanikis (2008) examinam a relação de equilíbrio de longo prazo entre os preços do açúcar, álcool e petróleo no Brasil, desenvolvendo vetores de correção de erro bivariável generalizado que permitem identificar a cointegração entre os preços de açúcar, etanol e petróleo. Como principal resultado, os preços de petróleo determinam o equilíbrio de longo prazo dos preços de etanol e açúcar. Foi encontrado também que os preços de açúcar causam no sentido de Granger os preços de etanol, mas não o contrário. Isto sugere uma hierarquia causal de petróleo para açúcar e do açúcar para o etanol, mais do que a ordem petróleo para etanol e açúcar.

Silva e Almeida (2006) analisaram a trajetória entre o preço do etanol, do açúcar e do petróleo no mercado internacional. Os movimentos dos preços de petróleo e etanol tendem a causar uma elevação do preço do açúcar no mercado internacional. Então, eles estudaram a relação de causalidade de Granger entre os preços do petróleo, do etanol e do açúcar internacional. Dessa forma, o estudo aponta na direção de uma forte ligação dos mercados de açúcar e petróleo que passam pela participação da produção de etanol derivada do açúcar. Nesse sentido, o Brasil tem um papel importante pela sua importância nos mercados internacionais de açúcar e etanol.

É notório que nos trabalhos citados existe uma preocupação sobre a expansão dos biocombustíveis no preço dos alimentos e na alocação de terras destinadas para o plantio de outras culturas alimentares. O Brasil, como um dos principais produtores, tem um papel importante nessa dinâmica. Segundo Rajagopal e Zilberman (2007) existem muitas lacunas no entendimento dos impactos econômicos dos biocombustíveis que precisam ser estudados em pesquisas futuras. A literatura é muito escassa para os países em desenvolvimento como o Brasil, onde a oferta de biocombustíveis e a demanda por energia e commodities agrícolas são vastamente diferentes em relação aos países desenvolvidos.



2.2. Biocombustíveis e o Setor Sucroalcooleiro no Brasil
De acordo com a FAO (2005), a produção mundial de etanol vem crescendo sensivelmente, desde a ocorrência do grande choque do petróleo na década de 70. O maior exportador mundial de etanol é o Brasil, responsável, em 2007, por 45% das exportações mundiais, seguido pela União Européia e pelos Estados Unidos. A justificativa para a grande participação do etanol brasileiro no mercado mundial está na vantagem comparativa da produção da principal matéria-prima: a cana-de-açúcar. Balcombe e Rapsomanikis (2008) e Moreira e Goldemberg (1999), afirmam que o PROÁLCOOL estimulou o melhoramento tecnológico na conversão de cana para o etanol. Segundo Von Lampe (2006), o etanol da cana-de-açúcar brasileira possui menor custo de produção3 quando comparado com as commodities de outros países produtores de etanol. Segundo dados do autor, o custo do etanol da cana é de US$ 0,219 por litro de combustível, enquanto o etanol norte-americano oriundo do milho possui custo de US$ 0,289 por litro4. Ademais, o autor afirma que o país seria o único capaz de produzir etanol de forma viável mesmo que o preço do barril de petróleo caísse para U$ 39,00.

Antes de 2003, e com o fim do PROÁLCOOL, a frota brasileira era composta, em sua maioria, por veículos abastecidos pela mistura gasolina e álcool. Entretanto, a partir desse ano, como uma reação do decrescente uso do etanol, a indústria automobilística introduziu os veículos bicombustíveis (flex fuel). Neste tipo de carro, o motor suporta qualquer tipo de mistura de gasolina e etanol. Com isso, o processo de escolha do consumidor tornou-se mais claro e direto, tendo como principal variável o preço dos combustíveis ajustado pelo rendimento no motor, abrindo espaço para o aumento do consumo de etanol no país. Em 2007, segundo a ANFAVEA (2009), a parcela dos veículos bicombustível da frota brasileira de veículos de passeio era quase 90%.

Kamimura e Sauer (2008) afirmam que a introdução dos veículos flex na frota brasileira foi um meio de sucesso para a recuperação do mercado produtor de etanol. Além disso, outro aspecto importante do PROÁLCOOL foi a redução da dependência interna do preço de petróleo. Segundo Weidenmier et al (2008), O Brasil reduziu a parcela de petróleo importado mais do que qualquer outra grande economia nos últimos 30 anos, de 70% na década de 70 para 10% nos dias atuais. No estudo de crescimento econômico do Brasil de 1980-2008, o PIB atual é 35% maior devido à produção doméstica de petróleo e o desenvolvimento do etanol de cana-de-açúcar, bem como foi encontrado pelos autores uma notável redução na volatilidade no ciclo de negócios.

Outro fator interessante é a relação entre a expansão da oferta de etanol e açúcar na região Centro-Sul e a área colhida de cana-de-açúcar desde o surgimento do PROÁLCOOL aos dias atuais. Na segunda metade da década de 70 até final da década de 80, ano de criação e expansão do PROÁLCOOL, a produção de açúcar se manteve praticamente constante em torno de 5 milhões de toneladas (Figura 1) e a área colhida aumentou praticamente devido à oferta de etanol. Já na década de 90 essa tendência se inverteu. A abertura comercial e a atração do preço do açúcar fizeram com que a oferta dessa commodity crescesse e a oferta do álcool se estabilizasse nessa época. Após a desregulamentação do setor, principalmente após o ano 2000, as ofertas das duas commodities cresceram sensivelmente. Entretanto, a produção de álcool cresceu a taxas menores do que o açúcar, com crescimento médio de 13% e 17%, respectivamente. Após a introdução dos veículos flex no Brasil, a oferta de álcool voltou a crescer mais do que a oferta de açúcar (com 14% contra 10% respectivamente), acirrando-se a competição entre esses mercados. Nota-se também na Figura que a área colhida segue a tendência da expansão do mercado sucroalcooleiro.

A demanda por etanol no Brasil também cresceu nos anos de prosperidade do PROÁLCOOL entre 1982 até 1986 (Figura 2). A média de crescimento no período alcançou quase 20%. Após esse período, a demanda praticamente tornou-se estável. Após o ano de 2003, com a nova política de incentivos de biocombustíveis, a taxa de crescimento da demanda foi de 13% e atingindo 43% no ano de 2006/2007.

Figura 1: Oferta de Açúcar em Milhões de t, Oferta de Álcool em Milhões de m3 e Área Colhida em Milhões de ha. nos Anos de 1976-2007.

Fonte: Elaboração própria baseado em dados da Datagro.

Figura 2: Evolução da Demanda de Etanol nos Anos de 1982-2007 em R$ Milhões

Fonte: Datagro
Existe também o crescimento da demanda externa por açúcar e por etanol brasileiros. Para o etanol, há um grande potencial de exportação devido a fatores ligados à produtividade e à crescente demanda dos países desenvolvidos visando a uma menor dependência de combustíveis fósseis (Martines-Filho, 2006 e Cabrini e Marjotta-Maistro, 2007)5. Para o açúcar, o mercado se mostra mais consolidado, pois cerca de dois terços do açúcar produzido no país é exportado (Datagro, 2007). Costa et al (2006) argumentam também que a exportação de açúcar e álcool ganhou destaque a partir do maior empenho na rodada de negociações da Organização Mundial de Comércio (OMC) para a redução do protecionismo dos países desenvolvidos na produção de açúcar, e da assinatura do Protocolo de Kyoto para uma maior efetivação do mercado internacional do álcool6.

A expansão da demanda por álcool resultou na mudança entre os mercados de álcool e açúcar no Brasil. Com essa inflação dos dois mercados e com um aumento persistente do preço dos combustíveis fósseis, os fundamentos da relação entre açúcar e álcool mudaram no Brasil, surgindo uma competição entre eles (Silva e Almeida, 2006). A crescente demanda por etanol induz uma produção maior de cana-de-açúcar destinada para esse produto, resultando em uma redução de oferta dessa última commodity, e conseqüentemente um aumento de seu preço (Tokgoz e Elobeid, 2006).

Um dos fatores que também assegura essa forte relação entre esses dois mercados é o preço do petróleo, o qual é referência para a viabilidade na produção de biocombustível. Ademais, Schmidhuber (2007) defende que o preço do petróleo é um importante ator na relação de causalidade entre o preço de açúcar e álcool. No curto prazo, os consumidores asseguram a relação entre petróleo (gasolina) e etanol, os produtores entre preço de etanol e açúcar; juntamente eles criam uma forte relação entre o preço do açúcar e o preço do petróleo. Segundo Tokgoz e Elobeid (2006) existem fortes evidências que os altos preços do açúcar estejam associados ao preço do petróleo. Uma análise de mercado da FAO (2006) concluiu que o preço do açúcar geralmente tende a seguir os preços do petróleo. Essa relação é comprovada no estudo de Balcombe e Rapsomanikis (2008).

Segundo Tokgoz e Elobeid (2006) e Von Lampe (2006), com a crescente demanda de biocombustível, 12 das 19 novas usinas abertas no país produzirão apenas etanol. O governo brasileiro antecipa que 89 novas usinas terão que ser construídas nos próximos anos para suprir a crescente demanda do biocombustível (F.O.Lichts 2006). Com a expansão da demanda por etanol, em março de 2006, as principais processadoras de combustíveis resolveram diminuir de 25% para 20% a mistura do etanol na gasolina devido à oferta limitada de etanol. Assim, como a procura por etanol estava alta, os produtores substituíram a produção de açúcar por etanol, resultando no mais alto preço do açúcar nos últimos 5 anos. Desta forma, o produtor vem sendo beneficiado, pois tem em mãos dois mercados com grandes demandas. Entretanto, a competição surge como alvo de questionamentos e de políticas públicas caso a demanda de biocombustíveis limite a oferta de alimentos (Martines-Filho, Burnquist e Vian 2006).

É importante salientar que o foco do estudo é no mercado sucroalcooleiro na região Centro-Sul. Entre os principais motivos para direcionar o estudo para essa região é que o etanol, o biocombustível mais importante do mundo, é produzido com a combinação de solos férteis, clima favorável, infra-estrutura e o Proácool que fizeram São Paulo e a região Centro-Sul serem responsáveis por 21% da produção mundial. E uma grande fração do aumento da produção de etanol no Brasil durante a próxima década será realizada nessa região (Smeets et al 2008).

Desta forma, como citado na revisão de literatura, existe uma correlação direta entre produção de etanol e produção de açúcar, como muitas usinas produzem açúcar e etanol: a razão da produção de açúcar para o etanol depende do preço do açúcar e do etanol. Ou seja, a competição dos mercados de açúcar e álcool é determinada pelo preço dessas duas commodities. A Figura 3 mostra a evolução do índice de preços do açúcar do álcool e da cana-de-açúcar. A tendência de queda dos preços desde a década de 70 é resultado do ganho de produtividade, que permitiu a queda no custo de produção. Nota-se, porém que desde a desregulamentação do mercado do álcool e com a nova composição da frota brasileira, a tendência de preço se inverteu.



Figura 3: Evolução do Índice do Preço da Cana, do Preço do Açúcar, do Preço do Álcool, 1976 a 2007

Fonte: Elaboração própria baseada em dados da Datagro

É necessário, então, analisar mais profundamente essa questão, através de um teste econométrico, a dinâmica do mercado sucroalcooleiro em face aos acontecimentos ocorridos após a desregulamentação do mercado.



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