Instituto nacional de pesquisas da amazônia


Key Words: Homegardens, Amazonian Dark Earths, ethnobotany, historical ecology



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Key Words: Homegardens, Amazonian Dark Earths, ethnobotany, historical ecology.  

 

 

 



 

 

Introdução 

 

A Floresta Amazônica possui uma face muito pouco admitida: a de ser, ao menos em 



parte,  uma  floresta  antropogênica  (Balée  1989;  Denevan  1992;  Peters  2000;  Willis  et  al. 

2004).  Isso  se  deve  principalmente  aos  processos  de  domesticação  da  paisagem,  que  são 



13 

 

manipulações  do  ambiente  a  partir  de  práticas  culturais  que  resultam  em  locais  mais 



produtivos  e seguros para os  seres  humanos  (Clement  1999). Os processos  de domesticação 

afetaram  praticamente  todos  os  ambientes  da  Terra  (Balée  2006),  deixando  nos  fatores 

bióticos  locais  heranças  que  podem  variar  consideravelmente  dependendo  da  intensidade  da 

intervenção  (Clement  2013).  Vários  trabalhos  mostraram  a  influência  da  ocupação  humana 

passada na vegetação atual. Em áreas de floresta, mostrou-se fortes padrões de diversidade de 

plantas  relacionadas  a  áreas  de  assentamentos  humanos  em  locais  de  antigas  ocupações 

romanas  na  França  (Dambrine  et  al.  2007),  e  maias  no  Belize  (Campbell  et  al.  2006;  Ross 

2011), mesmo com mais de 1000 anos de abandono. Na Amazônia Central, Levis et al. (2012) 

analisaram a comunidade de espécies úteis na floresta e mostraram que os impactos humanos 

se estendem até áreas consideradas atualmente primárias. Segundo os autores, a manipulação 

da  floresta  se  atenua  conforme  aumenta  a  distância  dos  grandes  rios,  cujas  beiras  seriam  as 

áreas com mais densas ocupações humanas no passado. Mesmo as capoeiras, que são áreas de 

sucessão  secundária  abandonadas  após  cultivo  agrícola,  quase  sempre  manejadas  após  o 

abandono, podem se tornar enriquecidas com espécies úteis e assim se conservarem ao longo 

de algumas gerações (Peters 2000). O efeito do passado nas plantas ainda pode ser maior se, 

além  das  mudanças  bióticas  na  paisagem,  acontecerem  mudanças  abióticas,  como  a 

transformação dos solos. Junqueira et al. (2010), estudando capoeiras em áreas de Terra Preta 

de  Índio  (TPI),  solos  criados  pela  manipulação  indígena  no  passado,  ao  compará-las  com 

capoeiras em solos de origem não antrópica, observaram que sua composição florística é mais 

rica em espécies úteis. Desse modo, concluíram que as TPIs funcionam como reservatórios de 

agrobiodiversidade. 

Nosso foco nesse estudo é testar a influência da ocupação humana passada em outra 

categoria  de  paisagem,  mais  dinâmica  e  mais  domesticada  do  que  florestas  e  capoeiras:  os 

quintais.  Quintais  são  as  formas  mais  típicas  de  sistemas  agroflorestais,  que  além  de 

contribuírem para a conservação da biodiversidade (Huai e Hamilton 2009), conservam parte 

da história e cultura local (Blanckaert et al. 2004). Miller e Nair (2006) os consideram como 

uma forma tradicional de uso da terra na Amazônia, com origens que datam dos primórdios 

da  agricultura  na  região,  há  milhares  de  anos.  Esses  autores  acreditam  que,  embora  as 

populações  indígenas  tenham  sofrido  um  colapso  populacional,  muitos  elementos  de  seus 

sistemas agrícolas e agroflorestais persistem. Em relação à composição florística, quintais são 

sistemas altamente diversos e dinâmicos (Abebe et al. 2010; Huai e Hamilton 2009; Wiersum 

2004),  devido  a  diferentes  fatores,  como    preferências  pessoais,  tradições  culturais,  grupos 



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étnicos  que  manejam  o  espaço,  tamanho  e  idade  do  quintal,  qualidade  do  solo,  clima,  flora 



local, processos de trocas sociais e até mesmo o banco de sementes dos solos (Aguilar-Støen 

et  al.  2009;  Clement  et  al.  2003,  2009;  Fernandes  e  Nair  1986;  Perrault-Archambault  e 

Coomes,  2008).  No  contexto  da  domesticação  da  paisagem,  podem  ser  considerados 

paisagens  cultivadas,  já  que  há  uma  transformação  completa  do  meio  biótico  em  favor  de 

plantas úteis, tanto domesticadas como não domesticadas, além de uma manipulação intensa 

do  ambiente  (Clement  1999,  2013).  Nem  todas  as  plantas  de  um  quintal  são  cultivadas,  há 

também  plantas  protegidas  e  plantas  espontâneas  (Blanckaert  et  al.  2004;  Padoch  e  de  Jong 

1991), e nesses casos a existência prévia de determinada planta no banco de sementes ou na 

região do entorno, somada à utilidade da planta, pode ser um fator que a propicia ocorrer em 

um quintal. 

No  contexto  apresentado,  as  Terras  Pretas  de  Índio  representam  ambientes  ideais 

para  averiguar  se  uma  ocupação  humana  passada  poderia  deixar  um  legado  nas  plantas  de 

quintais atuais. As TPI são a forma de domesticação da paisagem do período pré-colombiano 

mais  durável  e  amplamente  distribuída  da  Amazônia  (Fraser  et  al.  2011a,  WinklerPrins  e 

Aldrich 2010). São solos de cor muito escura, muito mais férteis do que os solos adjacentes 

altamente intemperizados, e que mantêm sua fertilidade por séculos, apesar do clima tropical 

e  de  cultivos  frequentes  (Woods  e  Denevan  2009).  Geralmente  apresentam-se  em  forma  de 

manchas que variam de menos de um a mais de 100 hectares, com altos níveis de nutrientes 

característicos  de  sítios  arqueológicos  e  com  a  presença  de  artefatos  de  cerâmica  em  todo  o 

horizonte modificado (Kern et al. 2009). Desse modo, as Terras Pretas também correspondem 

a locais de antiga habitação indígena (Woods e Denevan 2009), e seu período de formação se 

deu  principalmente  entre  500-2500  anos  atrás,  havendo  uma  relação  com  o  estabelecimento 

de  modos  de  vida  sedentários  e  produção  de  alimentos,  com  o  seu  processo  de  formação 

declinando  após  a  chegada  dos  europeus  (Neves  et  al.  2003).  Os  traços  estilísticos  e 

tecnológicos  de  cerâmicas  encontradas  em  sítios  arqueológicos,  incluindo  as  Terras  Pretas, 

reflete muitos aspectos de culturas passadas e historicamente têm sido usado por arqueólogos 

para  mapear  as  tradições  regionais  e  suas  mudanças  ao  longo  do  tempo.  Assim,  um  sítio 

arqueológico  é  o  resultado  de  um  conjunto  complexo  de  processos,  e  pode  mostrar  em  sua 

estratigrafia  tanto  artefatos  associados  a  uma  ou  mais  tradições  cerâmicas,  relacionados  ou 

não  às  mesmas  ocupações  humanas  (Renfrew  e  Ban,  1996).  Um  dado  sítio  arqueológico, 

portanto,  pode  ser  unicomponencial,  com  material  cerâmico  pertencente  a  um  conjunto 

artefatual;  ou  multicomponencial,  com  artefatos  correspondentes  a  pelo  menos  duas 



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ocupações  distintas,  estratigraficamente  diferenciadas.  Isso  é  o  que  caracterizará  o  que 



chamamos de “contexto arqueológico” para os quintais situados em Terra Preta de Índio nesse 

estudo.  

Considerando que muitos fatores influenciam a composição florística de um quintal, e 

que  sítios  arqueológicos  têm  o  potencial  de  acumular  plantas  úteis  relacionadas  ao  manejo 

passado, o presente estudo teve como objetivo testar o contexto arqueológico como uma das 

variáveis que influencia a composição florística de um quintal. Procuramos, assim, responder 

à  seguinte  pergunta:  os  padrões  de  diversidade  florística  em  quintais  situados  em  áreas  de 

Terra Preta podem ser influenciados pelo seu contexto arqueológico? 

 

Material & Métodos 

 

Á

REA DE 



E

STUDO


 

 

A  pesquisa  foi  realizada  em  quatro  comunidades  ribeirinhas  e  um  bairro  rural  nos 



municípios  de  Silves  e  Itapiranga,  localizados  ao  longo  do  baixo  rio  Urubu,  Estado  do 

Amazonas, Brasil (Figura 1): Pontão (2° 49' 59.30'' S, 58° 11' 29.77'' W), Mucajatuba (2° 50' 

33.21'' S, 58° 12' 29.64'' W), Irmandade Terra Preta (2° 48' 42.97'' S, 58° 13' 19.66'' W), São 

José  da  Enseada  (2°  46'  3.04''  S,  58°  4'  8.91''  W)  e  Taperebatuba  (2°  50'  15.43''  S,  58°  19' 

17.84''  W).  Todas  as  localidades  estudadas  possuem  manchas  de  Terra  Preta  de  Índio,  que 

variam de menos de 1 ha até 10 ha (Simões and Araujo-Costa 1978; Simões 1983). O clima 

local  é  caracterizado  como  Am  (Clima  Tropical  Chuvoso)  na  classificação  de  Köppen,  com 

temperaturas médias anuais que variam de 25,4 °C a 26,7 °C (Brasil 1976; Silva e Rodrigues, 

2003). A média de precipitação anual no local é de 2288 mm, com estação seca marcada que 

estende  de  junho  a  setembro  (ANA  2013).  A  vegetação  natural  da  região  é  de  Floresta 

Ombrófila Densa e de florestas periodicamente alagadas ao longo das várzeas dos rios (Brasil 

1976).  



16 

 

Fig. 1

Localização da área de estudo. Os círculos representam as comunidades estudadas, todas ao 



longo do rio Urubu, Amazonas, Brasil. Autoria do mapa: Bruno Moraes.  

 

Quanto  à  história,  o  rio  Urubu  é  conhecido  desde  o  século  XVII  por  suas  riquezas 

naturais  e pelo  elevado  número de  aldeias  indígenas  então existentes ao  longo do  rio e seus 

afluentes  (Simões  1981).  Na  região  há  dezenas  de  sítios  arqueológicos,  caracterizados  pela 

presença  de  Terra  Preta  de  Índio,  podendo  ter  substrato  arqueológico  unicomponencial  ou 

multicomponencial  (Lima 2013, no prelo). O rio  tornar-se-ia célebre pelos  massacres  contra 

os  povos  indígenas  cometidos  por  parte  dos  colonizadores,  sendo  que  o  primeiro  conflito 

relatado  data  de  1663  (Souza  2009).  Segundo  Simões  (1981),

  que  fez  os  primeiros 

levantamentos  arqueológicos  sistemáticos  na  região,  o  rio  permaneceu  por  muito  tempo 

ignorado e temido, tendo servido como refúgio de negros fugidos da escravidão, desertores e 

criminosos  até  fins  do  século  XVIII.  Atualmente  existem  dezenas  de  comunidades  não 

indígenas com populações tradicionais habitando as margens do rio e seus afluentes.

 

 



 

 

 



 

17 

 

A



SPECTOS 

É

TICOS DA 



P

ESQUISA


 

 

Devido ao envolvimento de comunidades tradicionais na pesquisa, os aspectos éticos 



foram  observados  com  atenção.  Para  cada  comunidade  pesquisada,  contactamos  os 

representantes  locais  e  lideranças,  e  apresentamos  o  projeto  de  pesquisa,  que  só  foi  iniciada 

com  o  Termo  de  Anuência  Prévia  por  parte  dessas  lideranças.  O  projeto  de  pesquisa  foi 

aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos do INPA (CEP-INPA), sob 

número  de  protocolo  024/11.  Conforme  exigido  pelo  CEP-INPA,  as  pessoas  entrevistadas 

durante  a  execução  da  pesquisa  assinaram  um  Termo  de  Consentimento Livre e  Esclarecido 

(TCLE),  que  reconhece  os  direitos  de  propriedade  intelectual  das  comunidades  sobre  as 

informações  fornecidas,  garante  o  sigilo  da  identidade  dos  envolvidos,  reafirma  a 

voluntariedade  de  participação,  e  explica  os  objetivos  e  métodos  da  pesquisa.  A  primeira 

autora  é  cadastrada  no  Sistema  de  Autorização  e  Informação  em  Biodiversidade  –  SisBio, 

coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, do Ministério do 

Meio Ambiente, para coleta e transporte de amostras botânicas para identificação. 

 

C

OLETA E 



A

NÁLISE DOS 

D

ADOS


 

 

Desenho amostral 

Ao  todo  46  quintais  foram  estudados  em  5  comunidades.  Todas  as  comunidades  da 

região  que  possuíam  mais  de  três  quintais  em  Terra  Preta  foram  amostradas.  A  escolha  dos 

quintais  levou  em  conta  a  presença  do  substrato  de  Terra  Preta  no  quintal,  a  indicação  de 

pessoas  pelos  próprios  comunitários  (método  Bola  de  neve,  Albuquerque  et  al.  2008)  e  a 

disponibilidade  do  mantenedor  do  quintal  para  realização  da  entrevista.  Duas  comunidades 

(Pontão e Mucajatuba) estavam sobre substrato arqueológico unicomponencial, com material 

cerâmico  pertencente  a  um  conjunto  artefatual  denominado  Tradição  Borda  Incisa  (TBI)  ou 

Barrancóide. As datações radiocarbônicas mais antigas das localidades são entre os séculos VI 

e VII d.C. (Lima 2013). Alguns autores têm postulado a relação entre os artefatos da TBI e a 

distribuição  dos  povos  falantes  de  línguas  do  troco  Arawak  (Lathrap  1970,  Heckenberger 

2002, Lima 2008). As outras três comunidades amostradas (Irmandade Terra Preta, São José 

da Enseada e Taperebatuba) estão sobre substrato multicomponencial, correspondente a pelo 

menos  duas  ocupações  distintas,  estratigraficamente  diferenciadas:  a  mais  profunda  também 

da Tradição Borda Incisa, e a mais superficial localmente denominada como Saracá (Simões 

and  Machado  1987).  Para  o  segundo  conjunto,  bem  mais  recente,  há  datações  em  torno  da 

conquista europeia. A região é rica em relatos etnohistóricos, que podem fazer referências aos 



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povos  indígenas  produtores  da  cerâmica  Saracá.  No  entanto,  uma  associação  neste  sentido 



ainda está por ser feita  (Lima 2013, no prelo).   

É  importante  colocar  que  não  existem  informações  sobre  reocupações  intensas

  das 

localidades  estudadas  até  o  momento  de  formação,  relativamente  recente,  das  comunidades 



atuais. Pelas conversas com os 

moradores mais velhos das localidades, acreditamos que isso 

deve ter acontecido há cerca de 100 anos atrás. Mesmo no caso do Mucajatuba, que configura 

como  um  bairro  rural  da  cidade  de  Silves,  que  é  famosa  na  literatura  historiográfica  do 

Amazonas  (Souza  2009),  os  relatos  também  remetem  a  uma  ocupação  atual  recente,  não 

diferindo, portanto, das demais localidades estudadas.   

  

Coleta de dados 

Em  cada  quintal  foi  medida  sua  área  e  realizado  o  levantamento  florístico  das 

espécies cultivadas e espontâneas. Consideramos espécies cultivadas as espécies que em pelo 

menos  um  quintal  foram  relatadas  como  “plantadas”  ou  “de  planta”  (usando  os  termos  dos 

informantes), mas  por ventura também podiam ser encontradas de maneira protegida (ou seja, 

a planta não era cultivada, mas por ser útil era mantida) e até mesmo espontânea em alguns 

quintais  (ou  seja,  não  tinham  a  intenção  de  ser  mantida  pelo/a  mantenedor/a  do  quintal). 

Espécies espontâneas foram as que não tiveram relatos de terem sido “plantadas” em nenhum 

dos quintais estudados. Para as espécies cultivadas o inventário foi realizado em toda a área 

limite de cada quintal  e  para  as  espécies  espontâneas  a área de  amostragem  foi padronizada 

em  10  x  20  m.  Poaceae  e  Cyperaceae,  famílias  notadamente  cosmopolitas  (Ribeiro  et  al. 

1999),  com  muitas  espécies  ruderais  e  com  poucos  usos  nas  comunidades  estudadas,  foram 

excluídas  da  amostragem  das  plantas  espontâneas.  Todos  os  indivíduos  de  espécies 

espontâneas foram coletados para identificação botânica, e depositados no herbário EAFM, do 

Instituto  Federal  de  Educação,  Ciência  e  Tecnologia  do  Amazonas,  Campus  Manaus-Zona 

Leste,  Manaus, AM.  As  identificações das espécies  nativas seguiram  a  Lista de Espécies da 

Flora do Brasil (2013) e das espécies exóticas seguiram The Plant List (2013). Para as plantas 

cultivadas,  utilizamos  principalmente  fotos  para  identificação,  pois  a  maioria  das  espécies  é 

bem  conhecida,  mas  quando  necessário  houve  coletas,  também  depositadas  no  Herbário 

EAFM.  Todas  as  espécies  foram  categorizadas  em  termos  de  sua  origem  ou  distribuição 

geográfica  original  para  realização  das  análises  de  dados.  Para  as  espécies  cultivadas,  as 

categorias  foram  nativas  da  região  Amazônica,  nativas  de  outras  regiões  das  Américas  e 

exóticas. No caso de imprecisão na origem, e da distribuição da espécie abarcar a região norte 


19 

 

da  América  do  Sul,  a  espécie  foi  considerada  nativa  da  Amazônia  (Clement  1999).  As 



análises  estatísticas  foram  realizadas  somente  com  o  conjunto  de  plantas  nativas  da 

Amazônia, que são as  plantas que têm possibilidade de ter relação com  o passado indígena. 

Para as espécies espontâneas, em sua maioria ruderais e de ampla distribuição, as categorias 

foram  nativas  das  Américas  e  exóticas  (Kissmann  e  Groth  1999,  2000;  Ribeiro  et  al.  1999; 

Steyermark  et  al.  1995-2005).  Nesse  caso,  as  análises  estatísticas  foram  realizadas  com  o 

conjunto  de  plantas  nativas  das  Américas.  Para  as  plantas  cultivadas  registraram-se  também 

os nomes populares. 

Em cada quintal também foi coletada uma amostra de solo no horizonte de 0-20 cm e 

foram  analisados  o  pH  em  H

2

O,  macronutrientes  (P,  K,  Ca,  Mg)  e  micronutrientes  (Fe,  Zn, 



Mn). As análises foram feitas no Laboratório Temático de Solos e Plantas do INPA de acordo 

com os procedimentos do protocolo de análise da EMBRAPA (1999).  



 

Análise dos dados  

Para  as  análises,  cada  quintal  foi  tratado  de  maneira  independente,  uma  vez  que  o 

manejo dos quintais por parte dos seus mantenedores depende de suas decisões e preferências 

pessoais.  As  análises  também  foram  feitas  independentemente  para  o  conjunto  de  plantas 

cultivadas  e  espontâneas,  porque  no  caso  das  primeiras  foi  preciso  realizar  uma  análise  em 

que  fosse  possível  controlar  a  possibilidade  das  variáveis  estarem  se  confundindo  para  a 

explicar  a  composição  florística  dos  quintais,  o  que  não  foi  necessário  para  as  espécies 

espontâneas, uma vez que para essas últimas foi possível distinguir claramente a importância 

de cada variável analisada. 

Os  resultados  das  análises  de  solo  foram  avaliados  por  meio  de  Análises  de 

Componentes  Principais  (PCA)  e  o  eixo  de  ordenação  do  solo  foi  utilizado  como  variável 

independente. 

Para espécies cultivadas  nativas da Amazônia, nós usamos dispersões multivariadas 

como uma medida de diversidade florística beta entre os quintais (Anderson et al. 2006), em 

que a dissimilaridade florística de cada quintal para seu respectivo centroide em cada contexto 

arqueológico foi baseada utilizando-se o índice de Jaccard de presença/ausência. Junto com o 

contexto arqueológico, nós incluímos os solos, a área dos quintais e a localidade. Modelos de 

Efeitos  Mistos  (Zuur  et  al.  2006)  foram  usados  para  analisar  nosso  desenho  amostral 

aninhado. O primeiro eixo do PCA dos solos e a área dos quintais foram componentes fixos e 

a  localidade  foi  controlada  como  um  fator  aleatório.  Todas  as  análises  foram  executadas  no 



20 

 

programa  R  (R  Development  Core  Team  2013),  usando  os  pacotes  vegan  (Oksanen  et  al. 



2009), lme4 (Bates et al. 2013) e languageR (Baayen 2011). 

Para espécies espontâneas nativas das Américas, a composição florística dos quintais 

foi  codificada  em  termos  de  presença  ou  ausência  das  espécies  encontradas,  e  ordenada  por 

meio  de  Escalonamento  Multidimensional  Não-Métrico  (NMDS)  (Legendre  e  Legendre 

1998).  Dessa forma, a  composição qualitativa da comunidade de plantas  foi reduzida a uma 

única dimensão ou eixo que correspondeu à variável dependente. A matriz de dissimilaridade 

do NMDS foi calculada utilizando-se o índice de Jaccard (Legendre e Legendre 1998). O teste 

de  Mantel  foi  usado  para  verificar  se  a  matriz  de  dissimilaridade  florística  está  relacionada 

com  a  distância  geográfica  entre  os  quintais.  O  efeito  do  solo  na  composição  florística  dos 

quintais  foi  testado  a  partir  de  uma  regressão  simples  em  que  a  variável  independente  foi  o 

eixo  de  ordenação  do  solo  por  PCA.  Para  avaliar  o  efeito  do  contexo  arqueológico  e  da 

localidade  na  composição  florística  foi  realizada  uma  regressão  múltipla  multivariada.  As 

análises  foram  executadas  no  programa  R  (R  Development  Core  Team  2013),  usando  o 

pacote vegan (Oksanen et al. 2009). 

 

 

Resultados 



 

D

IVERSIDADE DE 



E

SPÉCIES


 

 

Diversidade geral nos quintais estudados 

Ao  todo  foram  encontradas  214  espécies  cultivadas  nos  quintais,  pertencentes  a  68 

famílias  botânicas,  e  119  espécies  espontâneas,  pertencente  a  50  famílias.  Dentre  as  plantas 

cultivadas, 36,3% das espécies são nativas da Amazônia, 23,7% de outras partes das Américas 

e 40% são exóticas. Para as espontâneas, somente 4% eram originárias do Velho Mundo.  

Os  quintais  estudados  foram  muito  diversos  floristicamente  e  a  média  de  espécies 

cultivadas  por  quintal  foi  26,3  (desvio  padrão  ±  15,21).  Em  média,  havia  7,4  ±  4  espécies 

cultivadas nativas de regiões não amazônicas das Américas e 10,7 ± 5,61 espécies cultivadas 

exóticas  por  quintal.  As  espécies  exóticas  foram  muito  importantes  (Tabela  1),  e  laranjeira 

(Citrus  sinensis  (L.)  Osbeck),  bananeira  (Musa  ×  paradisiaca  L.),  mangueira  (Mangifera 

indica  L.)  e  coqueiro  (Cocos  nucifera  L.)  foram  as  espécies  mais  comuns  dentre  todas  as 

espécies  encontradas.  Entretanto,  só  consideramos  plantas  nativas  da  Amazônia  para  as 

análises das espécies cultivadas, e plantas nativas das Américas para as espécies espontâneas, 


21 

 

uma  vez  que  o  objetivo  do  trabalho  foi  relacionar  as  plantas  do  presente  com  a  ocupação 



humana passada.

 

 



 

Tabela  1.  R

ESUMO  DA  DIVERSIDADE  FLORÍSTICA  ENCONTRADA  EM  CINCO  COMUNIDADES  EM  DOIS  CONTEXTOS 

ARQUEOLÓGICOS NA BACIA DO BAIXO RIO 

U

RUBU


,

 

A



MAZONAS

,

 



B

RASIL


Contexto Arqueológico 

  

Unicomponencial 



 

Multicomponencial 

Localidade 

  

Pontão 



Mucajatuba 

 

Irmandade Terra Preta 



S. J. da Enseada 

Taperebatuba 

N° quintais estudados 

 

11 



11 

 



11 

Tamanho médio dos 



quintais (m

2



 

834 


632 

 

1466 



1494 

1148 


Riq. espécies cultivadas 

nativas na Amazônia 

 

37 


43 

 

27 



53 

26 


Riq. espécies cultivadas 

nativas de outras regiões 

das Américas 

 

24 



28 

 

24 



37 

24 


Riq. espécies cultivadas 

exóticas 

 

37 


49 

 

32 



53 

42 


Riq. espécies espontâneas 

nativas das Américas 

 

61 


49 

 

43 



54 

41 


Riq. espécies espontâneas 

exóticas 

  





 



 

 



Diversidade de espécies cultivadas nativas da Amazônia 

Foram  encontradas 77 espécies (média por quintal 8,38 ± 6,54) nativas da Amazônia 

nos  quintais,  pertencentes  a  41  famílias  botânicas  (Apêndice  1).  Dessas,  55  espécies 

ocorreram  nos  quintais  nos  contextos  arqueológicos  unicomponenciais  e  61  nos 

multicomponenciais. As três espécies mais comuns foram cupuaçu (Theobroma grandiflorum 

(Willd.  ex  Spreng.)  K.  Schum.)  (presente  em  67%  dos  quitais),  seguida  por  pimenta 

(Capsicum  chinense  Jacq.)  (47%)  e  macaxeira  (Manihot  esculenta  Crantz)  (44%).  Nos 

contextos  unicomponenciais  cupuaçu  também  foi  a  espécie  mais  presente  (estando  em  90% 

dos  quintais),  seguida  de  chicória  (Eryngium  foetidum  L.)  (57%)  e  pimenta  (52%).  Nos 

multicomponenciais cupuaçu e macaxeira (ambas ocorrendo em 46% dos quintais), pimenta 

favaca  (Ocimum  campechianum  Mill.),  ambas  ocorrendo  em  42%  dos  quintais,  foram  as 

espécies  mais  comuns.  Um  dos  quintais  estudados,  localizado  no  Pontão,  não  possuía 

nenhuma espécie nativa da Amazônia, e portanto, não foi utilizado nas análises. 

 


22 

 

Diversidade de espécies espontâneas nativas das Américas  

No total foram encontradas 114 espécies espontâneas (média por quintal 15,11 ± 5,38) 

nativas das Américas, pertencentes a 48 famílias botânicas (Apêndice 2), dentre as quais, 14 

são árvores e quatro são palmeiras, mas a ocorrência em ambos os casos foi rara. Das espécies 

espontâneas,  74  estavam  nos  contextos  arqueológicos  unicomponencis  e  87  nos  contextos 

multicomponenciais.  As  três  espécies  mais  comuns  nos  quintais  foram  Sida  sp.,  Microtea 

debilis  Sw.  e  Phyllanthus niruri L.  Para  os  quintais  em  contextos  unicomponenciais,  as 

espécies mais comuns foram Sida sp., Scoparia dulcis L. e P. niruri (ocorrendo em 57%, 54% 

e 50% dos quintais, respectivamente). Nos contextos multicomponenciais, Sida sp., M. debilis 

(ambas  presentes  em  75%  dos  quintais),  Amaranthus  deflexus  L.  (67%)  e  P. niruri  (62%) 

foram as mais comuns.  

 

RELAÇÃO



 

ENTRE


 

COMPOSIÇÃO

 

FLORÍSTICA



 

E

 



CONTEXTOS

 

ARQUEOLÓGICOS 



 

Para plantas cultivadas nativas da Amazônia, a variabilidade de composição florística 

dos quintais em contexto arqueológico multicomponencial foi significativamente diferente em 

relação  à  variabilidade  de  composição  florística  em  contexto  unicomponencial  (p  =  0,009) 

(Figura  2a).  O  conjunto  de  quintais  em  sítios  arqueológicos  com  mais  de  uma  tradição 

cerâmica em sua estratigrafia e que foram abandonados durante a colonização europeia foram 

10% mais heterogêneos do que o conjunto de quintais em sítios arqueológicos com uma única 

tradição  de  cerâmica  e  que  foram  abandonadas  antes  da  colonização  (Figura  2b).  O  modelo 

misto  explicou  39%  da  variabilidade  florística  da  matriz  de  dados,  e  dentro  desse  modelo  o 

contexto arqueológico foi responsável por 58% variação florística total. As outras variáveis 

utilizadas  na  análise  foram  de  menor  importância:  o  tamanho  do  quintal  não  teve  efeito 

mensurável, a fertilidade dos solos explicaram 38% da variação florística dentro do modelo, e 

a localidade explicou 3%.  



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