A cidade higienizada



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A cidade higienizada: 

política, população e eugenia em Laguna durante o Estado Novo 

 

João Batista Bitencourt



 

Doutor em História  

Professor da Universidade Federal do Maranhão 

 

 



 

 

Resumo:  a  chamada  virada  culturalista  da  antropologia,  observada  a  partir  do 

pensamento  de  Franz  Boas,  redimensionou  a  compreensão  das  teorias  raciológicas  do 

final  do  século  XIX.  No  Brasil,  tal  alteração,  possibilitou  uma  nova  leitura  da 

mestiçagem que procurava apagar antagonismos, como civilização/barbárie, branco/não 

branco,  nação/região,  e  produzir  soluções  para  os  ditos  problemas  nacionais  que 

estariam mais facilmente ao alcance da política e das ações governamentais. A questão 

raça/mestiçagem  antes  concebida  com  vista  ao  branqueamento,  já  que  se  creditava  à 

parte  afrodescendente  da  população  razões  que  entravavam  a  existência  do  Brasil 

moderno,  sua  adequação  ao  projeto  civilizatório  visto  nos  centros  mundiais  do 

capitalismo,  passou  do  final  do  século  XIX  ao  Estado  Novo  de  eliminação  étnica  à 

composição  de  uma  população  culturalmente  homogênea,  sadia  e  apta  ao  trabalho. 

Nesta  perspectiva,  a  eugenia,  como  saber  capaz  de  melhorar  as  capacidades  físicas  e 

morais do corpo social, respaldava mecanismos levados a efeito nas cidades e em seus 

habitantes  que  deveriam  torna-los  salubres  e  saudáveis.  Esta  comunicação  busca, 

partindo  dos  desdobramentos  acima  mencionados,  refletir  sobre  a  cidade  de  Laguna, 

localizada  no  Sul  de  Santa  Catariana,  observando  como  os  processos  eugênicos  da 

política  estadonovista  foram  implementados  pela  gestão  do  prefeito  Giocondo  Tasso. 

Durante  seu  extenso  mandato  –  Tasso  assumiu  o  executivo  lagunense  como  prefeito 

nomeado  em  1933,  continuou  no  cargo  por  sua  vitória  nas  eleições  de  1936  e  nele 

permaneceu  até  a  queda  de  Getúlio  Vargas,  em  29  de  outubro  de  1945  –  e 

principalmente no período do Estado Novo, desenvolveu na cidade um governo bastante 

identificado com o maneirismo político do Presidente. Vários elementos que compõem 

o estilo da nova modalidade de condução da política instaurada por Vargas podem ser 

encontrados  nas  ações  do  prefeito.  A  administração  Tasso  foi  um  período  de  grandes 

obras:  estrada  de  acesso  ao  município,  porto,  aeroporto  entre  outras,  algumas  delas  se 

destacam por ilustrarem as ideias eugênicas daquele período. É possível encontrar obras 

higienistas  como  o  Asilo  Santa  Isabel,  o  posto  de  saúde,  o  posto  de  puericultura,  que 

podem  ser  encaradas  como  demonstrativas  das  ideias  estadonovistas  de  formação  de 

uma raça forte. 



Palavras-chave: eugenia; política; Estado Novo. 

 

 



Conclamando  a  população  para  uma  mudança  nos  quadros  da  administração 

pública,  o  panfleto  oposicionista  intitulado  Vai  começar  o  peditório,  que  circulou  na 



 

 



cidade de Laguna-SC nos últimos meses do Estado Novo, acusava o prefeito municipal 

de ter sacrificado o bem estar dos lagunenses, ridicularizava as obras públicas realizadas 

e  lançava  suspeitas  sobre  o  envolvimento  do  chefe  do  executivo  no  incêndio  que 

destruiu o mercado público.  

 

Mesmo sendo verdadeiro o arquivamento do processo judicial que o envolvia no 



incêndio  do  mercado,  como  também  duas  notáveis  obras  realizadas  na  cidade  durante 

seu  governo  –  a  estrada  Laguna-Florianópolis  e  o  Ginásio  Lagunense  –  terem  sido 

gestadas em administrações anteriores, deve-se contudo relativizar a crítica expressa no 

panfleto.  Deve-se  levar  em  conta  a  rivalidade  própria  da  política  partidária,  que 

costumeiramente  tende  a  dar  maior  luminosidade  a  fatos  e  ações  que  possam  pesar 

contra  o  oponente,  principalmente  se  tratando  de  um  discurso  panfletário  que  buscava 

acender  o  ânimo  das  massas  para  uma  transformação.  Uma  outra  questão  que, 

intimamente  ligada  a  primeira,  não  deve  ser  subestimada,  diz  respeito  à  própria 

interdição  político-participativa  do  Estado  Novo.  Desde  1937  esse  tipo  de  atividade 

política estava proibida e a possibilidade de crítica pública com a redemocratização que 

se  afigurava,  trazia  à  tona  o  desejo  contido  em  anos  de  silêncio,  vozes  que  foram 

sufocadas por quase uma década. O que permite supor não exatamente um revanchismo 

gratuito, mas um experimento de liberdade e, até, o desabafo de um grito acumulado em 

anos  de  repressão.  Nesse  caso,  a  crítica  tornava-se  mais  incisiva,  enfatizando  aspectos 

negativos da gestão municipal. 

O  prefeito  objeto  das  denúncias  era  Giocondo  Tasso,  que  assumiu  o  executivo 

lagunense em 16 de abril de 1936 por sua vitória na eleição de 1

o

 de março daquele ano, 



mas  já  respondia  pela  administração  municipal  como  prefeito  nomeado  desde  1933.

1

 



Com mais de 12 anos respondendo pela administração pública lagunense, período quase 

tão longo quanto o primeiro governo Vargas, a gestão Tasso estendeu-se por um tempo 

maior  que  a  de  Nereu  Ramos  no  governo  de  Santa  Catarina.  Durante  esse  extenso 

mandato, e principalmente no período do Estado Novo, o prefeito Tasso desenvolveu na 

cidade  um  governo  aparentemente  muito  identificado  com  o  maneirismo  político  do 

                                                           

1

 Relatório apresentado à Câmara Municipal pelo Prefeito Giocondo Tasso. Laguna 4 de março de 1937. 



P. 3. 

 


 

 



Presidente.  Vários  elementos  que  compõem  o  estilo  da  nova  modalidade  de  condução 

da política instaurada por Vargas podem ser encontrados nas ações do prefeito. É certo 

que muitos dos atos e maneiras de atuação podem ser encarados como desdobramentos 

de  obrigatoriedades  vindas  das  instâncias  superiores.  A  forma  intervencionista  sobre  a 

máquina pública burocrática que a engenharia administrativa do Estado Novo montou, 

atrelava  as  várias  esferas  de  governo  aos  intentos  da  União.  A  série  de  mecanismos 

utilizados  para  esse  fim  procurava  em  última  instância  vincular  as  administrações 

municipais aos interesses do governo nacional. Na tentativa de esvaziamento de poderes 

políticos paralelos ao federal, as oligarquias estaduais e regionalistas, a ditadura Vargas 

colocava  grande  valor  no  municipalismo  e  procurava  fazer  chegar  ao  nível  das 

prefeituras,  principalmente  por  uma  padronização  burocrática  do  serviço  público, 

decisões  que  partiam  do  presidente  da  República.  Toda  a  gama  de  repartições  que 

passaram a compor a máquina estatal, como por exemplo o Conselho Administrativo de 

Estado  e  o  Departamento  das  Municipalidades,  forjavam  a  centralização  da  gestão 

pública  no  âmbito  nacional  por  uma  planificação  de  ações  na  esfera  estadual  e 

municipal  em  todo  o  território  brasileiro.  Assim,  muito  da  identificação  entre  o 

maneirismo  político  administrativo  de  Getúlio  Vargas  e  Giocondo  Tasso  pode  ser 

compreendido  pela  submissão  à  rede  de  observância  técnico-jurídico-gerencial;  a 

engenharia  de  controle  de  Vargas,  que  procurava  estabelecer  a  nação  como 

subordinação  das  demais  esferas  de  governo,  especialmente  fazendo-se  presente  na 

municipal.

2

 



Por outro lado, deve-se levar em conta que por mais estratégias de controle que o 

Estado  Novo  tivesse  implantado,  suas  eficácias  tornar-se-iam  em  certo  ponto 

questionáveis  dado as  dimensões  continentais do território  e, principalmente, o  grande 

poder  de  barganha  que  ainda  possuíam  antigas  elites  regionais  que,  quando  não 

contempladas  na  nova  configuração  da  estrutura  administrativa,  poderiam  apresentar 

certas  restrições  e  oposições.  Sem  contar  que  por  mais  urdida  que  fosse  a  teia  de 

                                                           

2

  BITENCOURT,  João  Batista.  Estado  Novo,  cidade  velha:  o  governo  ditatorial  de  Vargas  desde 



Laguna.  Porto  Alegre:  2002.  300  p.  Tese  (Doutorado  em  História)  –  Programa  de  Pós-Graduação  em 

História, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 

 


 

 



subordinação, restariam certos espaços de atuação, assim como de fuga e dissimulação, 

não  necessariamente  identificados  aos  ditames  oriundos  do  governo  federal.  Tal 

observação leva a uma outra dimensão da identificação aqui vislumbrada, essa passaria 

pelo mimetismo político. Isto  é, a adaptação espontânea ao novo regime que políticos, 

no  caso  da  esfera  municipal,  apresentaram,  assumindo  nas  suas  posturas  as  cores  do 

maneirismo da modalidade de governo instaurada por Vargas, sem que necessariamente 

tal  posicionamento  resultasse  da  obrigatoriedade  e  submissão  que  a  centralização  do 

Estado Novo impusera.

3

 

Em outras palavras, ao procurar captar elementos que sintonizem a gestão Tasso 



à nova modalidade política instaurada, procura-se por outras formas de compreensão da 

política. A engenharia governativa do Estado Novo, com toda a estrutura departamental 

de  centralização  montada  que  abrangia  as  diversas  esferas  de  governo  em  uma 

engrenagem  política  técnico-burocrática,  associada  às  relações  miméticas  na  política 

administrativa,  criava  pequenos  sósias  do  presidente,  pois  estes  estavam  em  maior  ou 

menor grau submetidos àquela máquina gerencial e/ou compartilhavam com os valores 

da nova ordem, formando uma espécie de base que dava suporte à pirâmide de controle 

público  administrativo  armada.  Diferente  dos  regimes  de  força  europeus  do  entre 

guerras,  ao  governo  ditatorial  de  Vargas  é  atribuída  a  falta  de  partido  político 

organizado  de  apoio,  de  efetiva  participação  das  massas,  como  também  de  unidade 

ideológica.

4

 O vácuo deixado por essas carências pode ter sido suprido pela submissão 



imposta  com  a  centralização  da  engenharia  de  controle  administrativo  e  com  o 

mimetismo  político  que  faziam-se  mecanismos  de  esteio  da  ditadura.  Assim,  fugindo 

das  considerações  já  consagradas  sobre  as  maneiras  de  afirmação  do  Estado  Novo  – 

porém sem querer negá-las e sim ampliar o leque de possibilidades de entendimento –, 

que  se  debruçam  sobre  elementos  como  a  figura  carismática  do  líder,  o  aparato 

publicitário  e  a  ação  repressiva,  desloca-se  a  análise  para  uma  outra  perspectiva  de 

                                                           

3

 Em análise sobre a vida privada francesa envolta pelas guerras e governos de força da primeira metade 



do  século  XX,  Gérard  Vincent  lembra  que  “Hitler,  Stalin,  Mao  e  Pol  Pot  não  teriam  feito  nada  se  o 

mimetismo  não  tivesse  criado  inúmeros  sósias  em  miniatura”.  VINCENT,  Gérard.  Uma  história  do 

segredo?. In: PROST, Antoine e VINCENT, Gérard (Org.) História da vida privada: Da primeira Guerra 

a nossos dias. São Paulo:  Companhia das Letras, 1992. Vol. V, p. 199. 

4

  SOLA,  Lourdes.  O  golpe  de  37  e  o  Estado  Novo.  In:  MOTA,  Carlos  Guilherme  (Org.).  Brasil  em 



perspectiva. 4

ª

 Ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973. P. 258. 



 

 



leitura  do  poder,  na  qual  alguns  desses  mesmos  elementos  são  visualizados  segundo 

uma ótica microcósmica.  

Tudo sugere não ter sido somente a figura do líder carismático, a criação do mito 

do  “grande  chefe”,  e  seu  aparato  de  coerção  e  cooptação  que  mantiveram  o  Estado 

Novo,  mas  também  toda  uma  rede  de  microinteresses  e  desejos  que  sustentavam  os 

efeitos hegemônicos. É preciso, como lembra Michel Foucault, pensar o poder longe do 

sistema “soberano-lei”. Para o autor  “a análise em termos de poder não deve postular, 

como dados iniciais, a soberania do Estado, a forma da lei ou a unidade global de uma 

dominação; estas são apenas e, antes de mais nada, suas formas terminais.”

5

 



Uma das razões mais utilizadas pelos ideólogos do regime para justificar o golpe 

de  37  era  justamente  a  afirmação  de  sua  necessidade  para  por  fim  ao  caos  nacional, 

tanto  no  sentido  político  como  social  e  econômico.  O  governo  forte  se  apresentava 

como um meio racional de superação do atraso e Vargas  era enaltecido como o avatar 

do progresso. A publicidade usou e abusou da palavra progresso associada às ações do 

governo. Progresso significava muito mais que uma esperança, era um trilhar certeiro do 

futuro  nacional;  era  divulgado  como  a  concreta  possibilidade  de  prosperidade  de  um 

governo  que  dizia  superar  os  erros  passados.  Acelerar  o  ritmo  do  desenvolvimento 

nacional  por  uma  categoria  administrativa  tecnocientífica  era  o  caminho  traçado  pelo 

presidente e sua realização era um dever de todos os brasileiros conclamados a servir ao 

engrandecimento da nação.

6

  



Na  administração  Tasso  muitas  obras  foram  projetadas  e  embora  nem  todas 

tenham sido levadas a cabo, sua gestão transformava o aspecto da cidade e apresentava 

uma aura progressista. As intervenções no campo da infra-estrutura urbana davam uma 

nova  cara  à  cidade  e  outras  realizações  do  executivo  municipal  juntamente  com  obras 

federais  e  estaduais,  empreendidas  no  município  durante  seu  governo  provocavam  a 

crença no desenvolvimento. Sem dúvida o centro era o alvo dos maiores investimentos, 

mas também os distritos tinham a atenção da prefeitura, como também nos bairros era 

                                                           

5

 FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: A vontade de saber. 10 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 



vol. I, p. 88. 

6

  CAPELATO,  Maria  Helena.  Os  arautos  do  liberalismo:  imprensa  paulista  1920-1945.  São  Paulo: 



Brasiliense, 1989. P. 209-211. 

 

 



visível  o  empenho  desenvovimentista  daquele  momento.  O  bairro  Magalhães,  em 

função  do  porto  carvoeiro  e  de  estar  entre  o  centro  e  o  balneário  Mar  Grosso,  foi  o 

bairro de maior expansão do período, onde foram realizadas várias obras. 

Os  Jornais  eram  enfáticos  a  divulgarem  notícias  animadoras  quanto  ao  futuro. 

Um grande número de matérias vinculam progresso com Estado Novo, com destaque às 

figuras do Presidente, do Interventor e do Prefeito. Foi bastante intensa a divulgação em 

manchete  de  capa  de  obras  e  empreendimentos  que  mostravam  a  cidade  diante  de  um 

grandioso  futuro  e  de  um  presente  pleno  de  realizações.  Tais  notícias  com  grande 

freqüência  estampavam  a  imagem  dos  políticos  e  Vargas,  Ramos  e  Tasso,  aparecem 

juntos em capas com nítida associação dos valores desenvolvimentistas do Estado Novo 

com o desempenho administrativo e os princípios políticos do interventor e do prefeito. 

Nereu  Ramos  e  Giocondo  Tasso  eram  apresentados  pelos  Jornais  como  colaboradores 

do  Estado  Novo,  os  adjetivos  atribuídos  na  construção  da  imagem  pública  de  Getúlio 

eram estendidos aos seus representantes no Estado e na cidade, eram eles considerados 

como defensores do bem estar coletivo. 

Entre  as  obras  que  promoveriam  o  futuro  grandioso  estavam  aquelas  que  se 

enquadravam  nos  ideais  eugênicos.  No  início  de  1937  Giocondo  Tasso  afirmava  que, 

mesmo não sendo mau o estado sanitário do município, a assistência pública necessitava 

um serviço mais condizente com o futuro planejado. Há alguns anos não se constatava 

na cidade qualquer surto epidêmico e a prefeitura processava algumas campanhas para 

manter  a  cidade  salubre.  Naquele  mesmo  ano  foi  instalado  um  serviço  de  combate  à 

febre  amarela  com  vistoria  nos  quintais  e  habitações  para  combater  os  mosquitos 

causadores da doença e no ano anterior procedeu-se a matança de cães como medida de 

contenção  dos  casos  de  raiva.  Procurando  manter  certo  grau  de  higiene  e  saúde  da 

população  a  prefeitura  mantinha  exame  diário  do  leite  comercializado  na  cidade  e  um 

laboratório de análise da banha e de outros produtos de origem animal, como também, 

fornecia  subvenções  e  auxílios  para  associações  de  caridade  que  durante  a 

administração Tasso surgiram em grande quantidade.

7

 

                                                           



7

  Relatório  do  Prefeito  Municipal  de  Laguna,  Giocondo  Tasso,  apresentado  à  Câmara  de  Vereadores. 

Laguna, 04 de março de 1937. P. 10, 14 e 18. 


 

 



Estratégia  de  controle  social  para  forjar  o  caráter  da  população,  estabelecendo 

regras  morais  e  sanitárias,  o  assistencialismo  foi  uma  marca  do  Governo  de  Nereu 

Ramos com vistas ao desenvolvimento industrial do Estado. Segundo Cynthia Machado 

Campos as políticas assistencialistas do Governo Nereu Ramos “podem ter deixado de 

ser um sistema de ajuda aos pobres, para converterem-se num instrumento a serviço da 

consolidação da indústria”.

8

 Nereu Ramos desenvolveu um programa de realizações no 



campo  da  saúde  e  da  assistência  social  com  a  intenção  de  “valorizar  fisicamente  o 

homem”.  Sua  demonstrada  preocupação  com  o  sanitarismo,  com  o  aperfeiçoamento 

moral  e  físico  da  população,  misturava-se  em  seu  discurso  com  outras  questões 

igualmente pertencentes ao ideário estadonovista.  

 

Laguna recebeu grande atenção do Governo Nereu Ramos quanto às questões de 



higiene e assistência, talvez o fato de ser uma cidade portuária tenha pesado na escolha 

para  lá  instalar  algumas  obras  sanitárias.  Por  iniciativa  do  governo  do  Estado  foi 

construído  em  frente  à  praça  Lauro  Müller,  em  uma  área  de  1.430  m²  doada  pela 

prefeitura,  um  posto  de  saúde.

9

  Um  prédio  de  40  metros  de  frente  por  cerca  de  15 



metros de fundos, completamente aparelhado para desenvolver as atividades médicas e 

sanitárias,  com  laboratórios,  sala  de  vacinação,  secção  de  sifiligrafia,  de  higiene  pré-

natal, etc.

10

 



Inaugurado  em  17  de  julho  de  1940,  o  posto  de  saúde  de  Laguna  servia  de 

exemplo  para  as  autoridades  atestarem  a  confirmação  do  progresso  da  cidade,  ele  era 

um ícone da “Laguna saneada e bonita” que o poder público dizia estar construindo. Por 

meio  do  centro  de  saúde,  o  governo  proporcionava  a  assistência  médico-higienista 

diretamente  à  população,  com  exames  e  medicalização.  Ou  seja,  pela  atuação  sobre  o 

corpo  dos  lagunenses.  Igualmente  através  do  posto  de  saúde  estabelecia-se  o  controle 

sanitário por meios indiretos como a fiscalização sobre a produção e comercialização de 

                                                           

8

  CAMPOS.  Cynthia  Machado.  Controle  e  normatização  de  condutas  em  Santa  Catarina  (1930-1945)



São Paulo: Dissertação (mestrado em História) PUC-SP, 1992. P. 34. 

9

 Ofício do Prefeito Municipal de Laguna, Giocondo Tasso, ao interventor Federal, Nereu Ramos. Laguna 



19 de novembro de 1938. 

10

 SUL DO ESTADO. Laguna, 04 de março de 1939. P. 01. 



 

 



alimentos,  o  destino  do  lixo  urbano  e  a  inspeção  dos  possíveis  focos  de  agentes  de 

proliferação de moléstia, como os matadouros e estábulos.

11

 

No ano seguinte  foi inaugurado no  bairro Magalhães  um  posto de puericultura, 



no qual passaram a ser oferecidos os serviços de higiene pré-natal e higiene infantil.

12

 O 



edifício  apresentava,  segundo  o  jornal  Sul  do  Estado,  as  melhores  condições 

profiláticas,  salas  espaçosas  e  bem  ventiladas,  com  paredes  revestidas  de  azulejos,  e 

“aparelhamento  sanitário  muito  bem  instalado,  facilitando  o  processo  de  higiene  e 

asseio”.


13

  No  mesmo  dia  em  que  inaugurou  o  posto  de  puericultura,  Nereu  Ramos 

inaugurou  também  o  estádio  do  Barriga  Verde  Futebol  Clube,  que  recebeu  o  seu 

nome.


14

 O esporte era encarado como um meio promotor do fortalecimento do corpo, de 

modelagem  estética,  de  conservação  das  forças  vitais  e  do  crescimento  da  força 

muscular,  enquadrava-se  nos  processos  eugênicos  de  construção  da  raça  forte  e  sadia. 

Além de moldar o corpo físico adaptando-o ao trabalho, a atividade esportiva modelava 

o corpo social e projetava no indivíduo uma plástica que deveria ser percebida como a 

fisionomia do regime. O Estado Novo reforçou as aulas de educação física nas escolas 

na busca do aprimoramento estético do corpo das futuras gerações de brasileiros,

15

 bem 


como  apoiava  e  incentivava  as  associações  e  clubes  esportivos.  O  decreto-lei  federal 

3.199 de 1941 determinava aos prefeitos a isenção de impostos e taxas municipais para 

as  exibições  públicas  promovidas  por  entidades  desportivas.

16

  Além  do  estádio  de 



futebol do Barriga Verde, foi também construído em Laguna, por iniciativa do Clube de 

Natação  e  Regatas  Almirante  Lamego,  um  estádio  esportivo.  Segundo  o  jornal  Sul  do 



Estado este clube estava se “impondo aos  sportmen catarinense, como um exemplo de 

trabalho em prol da eugenia da raça”.

17

 

Além  das  obras  de  maior  vulto  uma  serie  de  pequenas  realizações  buscavam  o 



“aprimoramento  da  raça”.  Não  foram  poucas  as  ações  profiláticas,  de  vigilâncias  e 

                                                           

11

 CENTRO de saúde. Sul do Estado. Laguna, 17 de março de 1940. P. 06. 



12

 POSTO de saúde e suas atividades. Sul do Estado. Laguna, 11 de julho de 1942. P. 01. 

13

 SUL DO ESTADO. Laguna, 27 de abril de 1941. P. 1. 



14

 A INAUGURAÇÃO do “estadium” do Barriga Verde. Sul do Estado. Laguna 14 de dezembro de 1941. 

P. 04. 

15

 ARAUJO, Maria Celina Soares D’. O Estado Novo. Rio de Janeiro: Zahar, 200. P. 38. 



16

  Ofício  do  Interventor  Federal,  Nereu  Ramos,  ao  Diretor  Geral  do  Departamento  de  Municipalidade, 

Heitor Blum. Florianópolis, 29 de agosto de 1941. 

17

 UM grande estádio em Laguna. Sul do Estado. Laguna, 10 de maio de 1941. P. 04. 



 

 



medicalização  da  população,  assim  como  as  campanhas  de  conscientização  higiênica 

através  dos  jornais.  Matérias  sobre  saúde  pública,  higiene  e  puericultura  eram 

publicadas  com  exaustão  e  procuravam  convencer  que  as  regras  gerais  de  sanitarismo 

tinham  a finalidade de  garantir  “o completo  e regular desenvolvimento do indivíduo  e 

da  espécie”.  Principalmente  com  relação  aos  pobres,  atestava-se  o  empenho 

estadonovista em criar os mecanismos de assistência, “valorizando o moderno conceito 

de proteção à saúde e consequentemente à raça”.

18

  



A eugenia durante o Estado Novo figura nas políticas publicas como também em 

ações  de  associações  filantrópicas,  o  asilo  de  mendicidade  Santa  Isabel,  por  exemplo, 

foi construído e administrado pela Associação Beneficência Lagunense; traduzem uma 

crença dos governos e da sociedade em atuar para o progresso pelo controle sanitário da 

população, com o principio geral de asseio e aperfeiçoamento do corpo e da constituição 

moral.  Por  outro  lado,  eram  pensados  métodos  de  atingir  toda  a  população  por 

estratégias  direcionadas  à  família,  ao  operário,  à  mulher,  etc.  Nessa  classificação,  a 

higiene  na  maternidade  e  na  infância  tinha  seu  destaque,  uma  vez  que  não  afetava 

somente  o  indivíduo  mas  também  a  nação  e  principalmente  seu  futuro,  a  força  de 

trabalho do amanhã.

19

  

 



Todo conjunto de obras e ações eugênicas buscavam a construção da nação por 

meio de uma população sadia e robusta, mas igualmente respondia a uma dificuldade ou 

desinteresse em atacar problemas de base, como má distribuição de renda, precariedade 

das  condições  de  moradia,  baixo  nível  de  emprego.  Assim,  o  assistencialismo  e  os 

processos  sanitários  eram  formas  de  construir  a  população  ideal  sem  alterar  a 

composição  de  classes  altamente  desigual  da  sociedade  brasileira  e  vincular  as 

melhorias  de  condições  de  vida  ao  paternalismo  estatal.  Madel  Therezinha  Luz  ao 

estudar as políticas nacionais de saúde no século XX lembra: 

 

as  instituições  médicas,  que  a  partir  de  30  tomam  cada  vez  mais  a  forma  de 



aparelho  de  estado,  mostram  assim  dupla  resposta:  resposta  às  reivindicações 

dos movimentos sociais da década de 20 e resposta de um sistema de poder que 

                                                           

18

 MATERNIDADE e puericultura. Sul do Estado. Laguna, 22 de março de 1940. P. 01. 



19

 MARQUES, Vera Regina Beltrão. A medicalização da raça: médicos, educadores e discurso eugênico. 

Campinas: UNICAMP, 1994. P. 118. 


10 

 

 



tentará a realização do processo de industrialização da sociedade brasileira com 

o  mínimo  de  transformações  sociais  que  impliquem  em  repartição  da  riqueza 

ou das decisões.

20

 



 

As  ações  eugênicas  por  parte  das  instituições  públicas  como  também  da 

sociedade  civil  organizada, respaldavam  uma mudança de visão sobre questões raciais 

observadas naquele momento.  

Durante a Primeira República constatou-se no Brasil o empenho das elites em se 

modernizarem  espelhando-se  no  desenvolvimento  do  norte  europeu.  O  projeto 

civilizatório  de construir um  país  em  sintonia com  os  avanços do capitalismo  mundial 

encantava  as  elites  urbanas  que,  empolgadas  com  o  desempenho  do  setor  cafeeiro, 

queriam  ser  cosmopolitas.  O  sonho  de  uma  Europa  tropical  porém,  esbarrava  no 

passado  escravista  que  deveria  ser  esquecido;  os  intelectuais  debatiam-se  em  forjar  o 

povo  brasileiro  como  presuposto  da  construção  da  nação  e  era  o  material  que  tinham 

para  construir  a  identidade  do  ser  brasileiro,  encarado  como  o  grande  problema  para 

colocar  o  país  no  caminho  da  modernidade  e  da  civilidade.  Teorias  raciológicas  viam 

principalmente  na  população  afro-descendente  um  entrave  ao  futuro  projetado, 

resultando  daí  posturas  voltadas  para  a  miscigenação  com  vistas  ao  branqueamento. 

Nessa perspectiva de  Brasil moderno, eram  as cidades vistas como  focos das “classes 

perigosas”  e  o  projeto  civilizatório  passava  naquele  momento  por  reajustamentos 

urbanos,  com  a  expulsão  dos  pobres  e  negros  das  áreas  urbanizadas.  A  preocupação 

com  o  “aformozeamento”  e  a  salubridade  das  cidades  fazia  dos  engenheiros 

personalidades  destacadas,  talvez  acima  dos  médicos  sanitaristas.  As  intervenções 

urbanas  estavam  muito  mais  voltadas  para  construir  imagens  simbólicas  da 

modernidade, como as avenidas, que dessem às elites elementos de identificação com a 

sociedade  desejada.  Ainda  que  seja  bastante  comum  o  estabelecimento  de  instituições 

enquadradas no que Michel Foucault considerou como rede institucional de sequestro – 

a  “ortopedia  social”  por  meio  de  uma  rede  de  vigilância  que  procurava  não  mais  o 

supliciamento  do  corpo,  o  castigo,  e  sim  sua  correção  na  pretensão  de  transformar  o 

corpo  e  a  mente  dos  sujeitos  e  adequá-los  ao  tempo  e  à  disciplina  do  trabalho  –,  em 

                                                           

20

 LUZ, Madel Therezinha. As instituições médicas no Brasil: instituição e estratégia de hegemonia. 3



ª

 ed. 


Rio de Janeiro: Graal, 1986. P. 57. 

11 

 

 



termos  gerais  as  intervenções  urbanas  do  limiar  do  século  XX  estavam  muito  mais 

voltadas à configuração do espaço citadino salubre, civilizado e ordenado que refletisse 

o desejo de ver na cidade ícones que lembrassem a Paris de Haussmann. No que tange a 

uma  política  pública  populacional,  aqueles  projetos  de  urbanização  promoviam  a 

expulsão da população indesejada das áreas centrais das cidades.

21

 



 

Nos  anos  vinte  começou  a  esboçar-se,  e  principalmente  nos  anos  trinta 

concretizou-se,  um  redirecionamento  que  se  poderia  colocar  como  a  passagem  da 

salubridade  para  a  eugenia.  Tal  passagem  acompanha  o  deslocamento  da  questão  raça 

para  a  cultura  aparente  no  pensamento  antropológico  brasileiro.  O  destino  nacional, 

compreendido  dentro  do  pensamento  das  teorias  raciológicas  do  final  do  século  XIX, 

estava na necessidade de vencer a “barbárie” e impedir a “degeneração” da etnicidade 

branca.  A  mestiçagem  era  então  elaborada  sob  princípios  raciais  com  vistas  ao 

branqueamento. A virada culturalista da antropologia, influenciada pelo pensamento de 

Franz  Boas,  para  quem  o  mundo  possuía  poucas  raças  e  uma  infinidade  de  culturas, 

apresentava uma nova conotação da idéia de mestiçagem, agora demarcada não mais em 

termos  raciais.  Era  pela  mestiçagem  cultural,  processada  enquanto  uma  culturalização 

da  raça  –  ou  seria  racialização  da  cultura?  –,  que  se  concebia  a  construção  do  ser 

nacional capaz de  apagar antagonismos (civilização/barbárie, nação/região, branco/não 

branco, etc.).  

Para Lourdes Martínez-Echazábal as novas interpretações culturalistas foram um 

redirecionamento  processado  no  interior  do  discurso  da  mestiçagem  previamente 

estabelecido e não uma profunda transformação dele. Assim, embora tenham produzido 

um  efeito  renovador  na  retórica,  tornando  a  mestiçagem  um  “elemento  fundante  e 

favoravelmente  diferenciador”,  não  rompeu  com  conceitos  fundantes  do  próprio 

                                                           

21

  Várias  obras  tratam  das  reformas  urbanas  e  do  tratamento  dado  a  população  pobre  e  ex-escrava  na 



virada  para  o  século  XX.  Entre  elas  pode-se  destacar:  SEVCENKO,  Nicolau.  Literatura  como  missão

tensões  sociais  e  criação  cultural  na  Primeira  República.  3

º

  ed.  São  Paulo:  Brasiliense,  1989. 



CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle 

Époque. São Paulo: Brasiliense, 1986.  NEEDELL, Jeffrey D.  Belle époque tropical: sociedade e cultura 

de  elite  no  Rio  de  Janeiro  na  virada  do  século.  São  Paulo:  Companhia  das  letras,  1993.  Sobre  as 

“instituições de sequestro” ver: FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: 

Nau  ed.,  1996.  ____.  Microfísica  do  poder.  11

ª

  ed.  Rio  de  Janeiro:  Graal,  1993.  _____.  Vigiar  e  punir



nascimento da prisão. 13ª ed. Petrópolis: Vozes, 1987. 

12 

 

 



discurso,  permanecendo  os  princípios  básicos  racistas  e  o  preconceito  socialmente 

materializado.  Segundo a autora: 

  

este  deslocamento,  embora  retórico,  teve  um  impacto  conceitual  significativo 



na  fenomenologia  das  relações  raciais  e  étnicas  nos  diversos  países  do 

continente e em suas ilhas, se bem que sua ontologia, em outras palavras, seus 

princípios  norteadores,  sua  estrutura  básica,  sua  poética,  tenham  permanecido 

congelados  nas  rígidas  hierarquias  sociais  que  tornam  possível  a  percepção 

fluida dessas relações.

 22


  

 

Por  essa  nova  lógica  a  solução  dos  ditos  problemas  nacionais,  notadamente  a 



regeneração do povo que prendia a nação ao atraso, estaria mais facilmente ao alcance 

da política, já que a inferioridade não mais se compunha de um determinismo biológico, 

passando  a  mestiçagem  a  compor  um  diferencial  valorativo  da  identidade  nacional. 

Exemplo  disso  foi  a  criação  do  Dia  da  Raça,  uma  das  datas  cívicas  instituídas  no 

governo Vargas,  para enaltecer a tolerância e o cordial convívio no Brasil  “cadinho das 

raças”. Lilia Moritz Schwarcz, ao tratar da estetização de uma cultura brasileira a partir 

dos anos 30, lembra que:  

 

para além do debate intelectual, tudo leva a crer que, a partir dos anos 30, no 



discurso  oficial  “o  mestiço  vira  nacional”,  ao  lado  de  um  processo  de 

desafricanização de vários elementos culturais, simbolicamente clareados.

23

  

 



A  passagem  da  concepção  da  mestiçagem  de  raça  para  cultura  possibilitava  o 

entendimento  do  desenvolvimento  nacional  sem  esbarrar  na  formação  multirracial. 

Assim,  da  eliminação  étnica  passa-se  à  composição  de  um  povo  culturalmente 

homogêneo,  no  que  implicava  a  uma  categorização  da  comunidade  brasileira,  e  uma 

população sadia, forte, disciplinada e apta ao trabalho; ideal a ser alcançado por meio de 

                                                           

22

  MARTÍNEZ-ECHAZÁBAL,  Lourdes.  O  culturalismo  dos  anos  30  no  Brasil  e  na  América  Latina: 



Deslocamento  retórico  ou  mudança  conceitual?  In:  MAIO,  Marcos  Chor  e  SANTOS,  Ricardo  Ventura 

(Orgs.) Raça, ciência e sociedade. Rio de janeiro: FIOCRUZ/CCBB, 1996. P. 107-121. P. 121. 

23

 SCHWARCZ, Lilia Moritz. Nem preto nem branco, muito pelo contrário: Cor e raça na intimidade. In: 



_____  (Org.).  História  da  vida  privada  no  Brasil:  contrastes  da  intimidade  contemporânea  (v.  4).  São 

Paulo: Cia das Letras, 1998. 173-244. P. 196. 



13 

 

 



processos profiláticos de saneamento e medicalização do corpo social. “A eugenia surge 

então como força capaz de transformar a nação em um corpo homogêneo e saudável.”

24

 

A nova visão da questão social/racial, levava a outros diagnósticos da população 



e  do  papel  do  Estado  e  das  elites.  Enfrentar  a  pobreza  era  atribuição  maior  do  Estado 

populista  e  desenvolvimentista,  bem  como,  da  sociedade  como  um  todo,  com  o 

enaltecimento  de  valores  filantrópicos  e  beneméritos,  pelo  engrandecimento  nacional. 

Transformar  povo  indolente  em  classe  laboriosa,  encontrava  sentido  na  lógica 

cidadania-trabalho.  Disciplina  cívica  para  o  aprimoramento  moral  do  ser  brasileiro, 

capacitando os trabalhadores e modelando o operariado, cruzava-se com uma medicina 

social  voltada  para  o  aprimoramento  eugênico  corporal,  a  higiene  na  alimentação,  na 

moradia, no cuidado de si, na maternidade, na infância. Neste sentido a cidade não será 

tematizada como normatizadora das ações e das condutas, há sem dúvida a procura por 

embelezamento  e  realizações  sanitárias  como  calçamento,  rede  de  água  e  esgotos  etc., 

porém outras questões higiênicas mais ligadas à construção moral e higiene corporal da 

população ganhavam maior notoriedade. 

Para  Luiz  César  de  Queiroz  Ribeiro  e  Adauto  Lucio  Cardoso,  no  Estado  Novo 

não  houve  o  estabelecimento  de  normas  urbanísticas,  em  geral  a  idéia  de  cidade  em 

Vargas segue a mesma vertente encontrada na Primeira República. Características como 

concepção  organicista,  embelezamento  e  controle  social  vigoraram  com  uma 

modificação,  “na  finalidade  da  sua  utilização”.

25

  Também,  Luis  Lopes  Diniz  Filho  e 



Vagner  de  Carvalho  Bessa,  afirmam  que  a  inexistência  de  um  corpo  coeso  de  idéia 

atribuída  ao  Estado  Novo  pode  ser  observada  igualmente  para  a  questão  urbana.  Os 

ideólogos do regime dividiam-se na defesa de encontrar o sentido da nacionalidade no 

campo  ou  na  cidade.  A  falta  de  unidade  de  pensamento  era  apaziguada  no  discurso 

ambíguo  de  Vargas  que  valorizava  tanto  o  campo  como  a  cidade  e  buscava  diluir  tal 

cisão em termos de um nacionalismo com a perspectiva de desenvolvimento harmônico 

e integrado. Segundo os autores:  

                                                           

24

  LIRA,  José  Tavares  Correia  de.  O  urbanismo  e  o  seu  outro:  raça,  cultura  e  cidade  no  Brasil  (1920-



1945). Revista brasileira de Estudos Urbanos e Regionais. N. 1, maio de 1999. 47-78. P. 49.  

25

  RIBEIRO,  Luiz  César  de  Queiroz  e  CARDOSO,  Adauto  Lucio.  Planejamento  urbano  no  Brasil: 



paradigmas e experiências. Espaço & Debates. São Paulo, n. 37, 1994. 77-89. 

14 

 

 



 

em  Vargas  desaparece,  portanto,  uma  vinculação  necessária  entre  o  caráter 

nacional e a suposta mentalidade das populações urbanas ou rurais, pois se há 

uma qualificação do habitante do interior do País como representante maior da 

brasilidade  em  seus  discursos,  isto  se  faz  através  de  um  argumento  anti-

cosmopolita, que opõe o nacional ao estrangeiro e não o homem do campo ao 

morador da cidade.

26

 



 

 

O discurso da cidade dos sonhos modernos do limiar do século XX era também 



recheado de intenções de ordenamento e medicalização da população, o espaço urbano 

salubre  fazia  parte  das  falas  que  justificavam  os  “bota-abaixo”.  Contudo  aquele 

momento  foi  igualmente  um  período  de  grandes  epidemias  e  mortandade.

27

  A 



diferenciação  entre  salubridade  e  eugenia  lembrada  acima  está  no  realce  que  cada 

questão  ganha  em  cada  um  dos  dois  momentos.  Com  a  salubridade,  percebe-se  uma 

preocupação  mais  voltada  para  a  higiene  da  cidade,  quando  elites  urbanas  queriam 

adentrar  ao  universo  da  civilidade  dos  grandes  centros  mundiais,  enquanto  que  com  a 

eugenia  é  mais  aparente  a  intenção  de  aperfeiçoar  a  “raça”,  capacitando  os  corpos  e 

forjando  uma  nação  forte  e  sadia.  Ambas  as  questões  estão  presentes  nos  dois 

momentos,  mas  são  revestidas  de  maior  ou  menor  notoriedade  de  acordo  com  o  ideal 

político mais latente. 

 

 

 



 

 

 



 

                                                           

26

  DINIZ  FILHO,  Luis  Lopes  e  BESSA,  Vagner  de  Carvalho.  Vocação  e  nacionalismo:  as  visões  do 



urbano no pensamento do Estado brasileiro (1931-1961). Espaço & Debates. São Paulo, n. 34, 1991. 105-

112. P. 107. 

27

  PECHMAN,  Sérgio  e  FRITSCH,  Lilian.  A  reforma  urbana  e  seu  avesso:  algumas  considerações  a 



propósito da modernização do Distrito Federal na virada do século. Rev. Bras. de Hist. São Paulo, v. 5, n. 

8/9, p. 139-195. 1984/1985. 



 


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